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Sinto falta da França. Sinto falta dos franceses, sinto falta dos meus enormes 35 metros quadrados. Sinto falta dos (poucos) amigos, sinto falta das bichinhas do marais, sinto falta do sena, da fila no beaubourg (ok, not that much). Mas falta pouco para voltar.
Não me leve a mal. Portugal tem sido ótimo. Uma aventura e tanto. Criar algo é o desafio dessa minha curta temporada lusa. E confesso que nunca me imaginei criando nada além de problemas e complicações. Mas, ó pá, cá estou e, pior, gostei.
O processo criativo é um pouco doloroso (Rá!). Mas nunca imaginei que pudesse sentir tensão com pitadas de sofrimento e isso ser bom. Muito bom, na verdade. Desde o início da minha vida profissional, o sofrimento vinha com uma angústia dolorosa. Às vezes boa, é verdade, produtiva até, mas, na maioria dos casos, essa mistura dava-me calafrios e insegurança. Então, foi uma grata surpresa saber que posso fazer algo sentindo-me bem, ainda que uma porção de sentimentos contraditórios estejam cercando-me. Basta saber canalizar tensão, angústia, insegurança, dúvidas para o lado positivo. Sim, há uma forma de se aproveitar dessa mistura toda: criando algo. Pode ser um texto (that's why blogs are for), um roteiro, um origami, uma foto, uma canção, uma teoria ou um jogo. Isso mesmo minha gente, um jogo. No meu caso, de tabuleiro. Louco, não? Como um hobby pode ir além! Tornou-se mestrado para ganhar asas e transformar-se em algo concreto, com direito a tabuleiro, fichas e cartas. Não sei o que vou fazer com tudo isso, mas gostaria de transformar essa oportunidade em uma bela caipirinha, if u know what I mean.
Sempre fiquei abismada com as raras pessoas que conseguiram transformar seus trabalhos em uma fonte de prazer. Claro que a vida não é sempre um comercial de margarina. Às vezes o prazer é uma enorme fonte de dor de cabeça, mas, no fim há uma satisfação de saber que valeu a pena largar tudo para tentar algo diferente.
Criar é uma droga, que pode me viciar rapidinho. Mas, pessimista e crítica que sou, sempre deixarei o lado bom no lugar dele: de lado.
Portugal já cumpriu sua função. Mesmo que o jogo seja apenas um protótipo. Em Paris jamais poderia encontrar um lugar como esse onde estou para descobrir que os jogos de tabuleiro podem ir além do hobby e da curtição entre amigos. Um francês jamais (e olha que eu tentei vários deles) responderia a uma ligação de pedido de estágio dizendo: então te proponho um estágio no qual você crie um jogo de tabuleiro e depois analise a viabilidade de produção e distribuição. Ou seja, faça tudo, mas faça você mesmo! Não é pra servir cafezinho? Não é pra atender o telefone? Que estágio é esse?
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