Aquele show
Aquela noite no Circo Voador foi mágica. Eu, que já tinha desistido de ir a shows, ou de só ir aos shows dos meninos, esqueci a promessa logo nos primeiros acordes de This Boy. Naquele cantinho,, aparentemente seguro do lado direito do palco, foi perfeito. Dava pra ver os caras, dançar, pular e cantar sem atrapalhar as pessoas. No meio, víamos a massa pulando enlouquecidamente, com os braços pra cima, cantando cada trecho das letras. Catarse total.
O Franz Ferdinand me deixou mal acostumada. O show, naquele verão carioca de 2006, foi maravilhoso. Fora que as companhias também eram perfeitas para aquele momento. Saí de lá acreditando que valia, sim, ir a lugares lotados, quentes, com pessoas bêbadas, sem noção ao seu redor, que te empurram, atrapalham a sua visão do palco e não estão nem aí pra você. Sim, conforme eles tocavam, a multidão ia fazendo sentido.
Depois daquele dia, passei a viver um dilema. E se os outros shows, de outros artistas, não forem capazes de reproduzir aquilo que eu experimentei? Passei a ter medo. Não quero me decepcionar, não quero me frustrar e voltar ao que-saco-neguinho-é-foda-eu-odeio-a-humanidade (sim, eu fico mal humorada). Comecei a evitar os shows. Aquele momento não podia se perder depois uma possível má experiência!
Corta.
Paris.
Aqui decidi que teríamos que aproveitar o momento. Quando pudéssemos, claro, afinal, as coisas aqui custam caras e em euros. E sem essa de meia entrada. Estudante aqui, só até 26 anos tem vez e mesmo assim é um desconto menos radical que 50%.
Mas nem sempre dá pra aproveitar porque os shows lotam rápido. E um concerto pode ser anunciado com mais de um ano de antecedência. E não é exagero meu, não. Assim, de tempos em tempos tenho que ficar de olho no site da Fnac.
Assim, queria estrear logo nossa fase "enjoy the moment". Começamos mais ou menos. Quer dizer com uma cantora que não era assim uma Emy Winehouse, mas que podia ser interessante. Joss Stone. O show foi correto, ela tem uma bela voz que me surpreendeu. Não ficou nos altos e baixos à la Whitney Huston, Celine Dion, esse povo. Ok, ela não é nada disso. Ela é mais soul, jazz, mas ela é também pop e uma cantora pop pode ser perigoso. Mas ela se comportou direitinho. Gostei, apesar de não ter sido uma catarse. Público sentadinho, super-demais-comportado. Meio estranho aquilo. Ela pedia para a platéia se levantar, dançar e a platéia continuava ali, estática. Não porque o show estivesse ruim, ou não estava empolgando a platéia. Simplesmente porque eram lugares sentados e então era para se ver sentado o show. Enfim, coisas daqui.
Joss Stone teve o seu valor. O valor de provar que nem todo show tem de ser uma loucura total, com platéia ensandecida. Showzinho tranqüilo (ainda não mataram a trema!!) tem o seu valor também.
Mas eu queria mais. Queria experimentar mais. Queria aproveitar que o mundo vem fazer show aqui, que nós podemos escolher o que quisermos (ou o que pudermos pagar ou o que não lotar antes).
Foi então que eu vi o anúncio para reserva de bilhetes para aquele que poderia ser O show. Aquele que, talvez, pudesse ser comparado ao dos meninos escoceses. Não pensei duas vezes. Reservei dois. E, quando pude, passei na Fnac aqui perto de casa para pegar em pessoa e ver com os meus próprios olhos.
Keane!,
uma bela promessa. Minha obsessão mais recente (ok, junto com Travis e, ok, já tem mais de um ano que ouço, não é tão nova assim, mas é uma das últimas).
Os preparativos para a grande noite foram confusas. Primeiro dia de estágio, computador na mochila, passar em casa pra deixar o computador em casa, voltar pro metrô pra ir pro show. Ufa, chegamos a tempo de ouvir a banda de abertura. MissHawke, uma simpática banda da Nova Zelândia, que chegou a animar a platéia. Alguns até se mexeram!
LadyHawke
O show não prometia muito. A casa estava com um pouco mais da metade de sua capacidade quando chegamos e só na metade do show da misshawke é que ficou cheia. Aí, chegaram as bichinhas fedidas e má educadas, entrando nas nossas frentes e começo a pensar se não é melhor ir mais atrás pra não me estressar muito. Mas seguramos e ficamos ali mesmo até que, 21h10, eles entram.
No palco, eles estão ótimos, empolgados, mas a platéia é tímida ainda. Alguns estão dançando, claro, afinal não dá pra não se encantar com o fofo-cara-de-inglês-muito-inglês Tom Chaplin (vocal, guitarra e violão), com Richard Hughes (bateria) e com o contagiante Tim Rice-Oxley (piano, teclado).
O setlist é perfeito. Entre uma música nova e outra, muitos hits. Estavam todos lá: Somewhere Only We Know, Bend and Break (em versão acústica), Crystal Ball, This is the Last Time, We Might as Well be Strangers, Everybody's Changing, etc., etc..
Aos poucos, a platéia começa a ganhar forma. Cresce. Não junto com o show, porque eles já estavam grandes lá no palco. Mas a platéia aqui é assim. Tímida, contida, sei lá. Enquanto no Rio, naquela noite quente, o primeiro acorde foi suficiente para desencadear a catarse, a loucura total da platéia, aqui foi preciso desenvolver, conquistar. Mas conquistou e foi lindo.
Keane me fez acreditar que é possível. Não, FF no Circo foi único, assim como os ingleses nessa noite nem tão fria de novembro, em Paris. Eles são ótimos. Excelente presença de palco. Tom até ensaiou um francês aqui e ali, mas a base do diálogo foi o inglês mesmo. Depois, tinha gente reclamando, que ele não interagiu muito com a platéia! Aimeudeus. O difícil depois de um show desses é ter que ouvir isso de um francês. Meu caro, tu n'as rien compris!!!
Infelizmente.
Mas tem mais! 9 de dezembro!